11.4.06

FOLHA DE SÃO PAULO
FOLHATEEN
10 de abril de 2006
Contra o preconceito

Jovens que nasceram com o HIV contam que têm um cotidiano normal, mas lutam para enfrentar a intolerância ALESSANDRA KORMANN COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A Aids foi descoberta há 25 anos. Hoje, pela primeira vez, uma geração de pessoas que nasceu com o HIV chega à adolescência e ao início da vida adulta. Quando a epidemia começou, as crianças que nasciam com o HIV, transmitido pela mãe, não viviam mais do que cinco anos. Já em meados dos anos 90, essa história mudou: novos remédios e tratamentos melhoraram a qualidade de vida dos soropositivos e transformaram a Aids em uma doença crônica, mas que pode ser controlada. Nem por isso, entretanto, deixou de ser uma enfermidade grave e fatal.Mas, como é o dia-a-dia de quem tem o vírus?
O Folhateen conversou com alguns desses adolescentes, que falaram um pouco de como são os relacionamentos com os amigos, a família e os parceiros, dos cuidados médicos que precisam tomar e do que consideram o principal problema enfrentado no cotidiano, o preconceito."Eu namoro, vou a baladas, trabalho, vou à escola, faço cursos. Não deixo de fazer nada por causa do HIV. Quando quero algo, luto. Só tenho mais responsabilidades, alguns cuidados, mas nada que me faça sentir diferente dos outros jovens", conta Nicole, 17, que pegou o HIV da mãe quando nasceu (a chamada transmissão vertical).
Em um encontro organizado pelo Unicef no ano passado, jovens soropositivos de todo Brasil definiram como sendo temas de sua adolescência namoro, rebeldia, diversão, alegria, sexo, primeiras vezes, descoberta, mudança, aventura etc. Ou seja, muito provavelmente os mesmos itens que seriam citados em um encontro com jovens não-soropositivos. Mas, quando a pergunta foi: "Ser adolescente com HIV tem a ver com", as respostas foram: preconceito, luta, força de vontade, coragem, apoio, responsabilidade, segredo etc.
Quer dizer, vida normal, mas com mais dificuldades."Nunca ninguém antes na história passou a adolescência com um vírus que é transmitido pelo sexo, justamente na fase da descoberta do corpo, da sexualidade, da socialização. Todas essas sensações típicas da adolescência passam a ser condicionadas por um vírus, o que gera uma vulnerabilidade muito grande", diz o oficial de projetos do Unicef Mario Volpi, que ajudou a organizar os encontros.Para os jovens, o preconceito é o pior dos problemas.
"Uma garota ficou sabendo que a outra tinha HIV e não quis mais um pedaço do lanche dela", conta Tânia, 16, que participa de um projeto do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto com dez jovens -seis soropositivos e quatro não. "Já ouvi também a história de uma professora que contou que uma aluna nova tinha HIV e, no dia seguinte, os pais dos outros alunos foram lá pedir para que ela fosse expulsa da escola."
A falta de informação é um dos principais responsáveis pelo preconceito. "Saber que um amigo tem HIV gera impacto no grupo. Rola uma neura, um medo meio irracional de pegar a doença. Às vezes a pessoa precisa conviver com alguém soropositivo para ver que alguns medos são absurdos, que o vírus não é transmitido pelo ar, por beijo e abraço, por beber no mesmo copo etc.", diz Jairo Bouer, psiquiatra e colunista do Folhateen.
Outra dificuldade é o dilema de contar ou não contar para os outros. "Sei de um garoto que descobriu que a menina com quem ele estava ficando tinha HIV e espalhou para a escola inteira", conta Laura, 17, também do projeto do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, o Cedoc (Centro de Documentação sobre Adolescer Vivendo com o Vírus HIV)."A gente sente quando a pessoa está preparada ou não", diz Nicole. "Existem pessoas que aceitam bem e outras que são preconceituosas. Mas a maneira como reagem não me importa. Eu penso assim: se ela merecer minha amizade, vai me aceitar, mas, se não me aceitar, ela nunca mereceu a minha amizade, a minha atenção e a minha confiança", conclui.
A forma como os jovens sabem que têm o HIV também pode ser traumática. "Quando a pessoa fica sabendo muito tarde, joga a culpa nos pais, gera revolta", explica Adriano, 15. "Às vezes, a descoberta é aos poucos, os pais vão introduzindo em grupos que discutem o assunto", diz Ivan, 17.Katia, 18, começou a ficar desconfiada quando viu uma reportagem na TV sobre Aids, mostrando os mesmos remédios que ela tomava. Na época, ela tinha uns 10, 11 anos. "Perguntei para a minha médica, que confirmou e me explicou tudo."
Já Nicole soube na época em que o seriado "Malhação", da TV Globo, tinha uma personagem soropositiva. "Nunca pensei que aquela ficção seria tão real para mim", lembra. Quando a sua psicóloga achou que ela estava preparada, a sua mãe contou que ela tinha o vírus. "Não culpo a minha mãe. Se ela pudesse escolher, sei que não teria me passado. É o meu destino. Você deve ser feliz como você é. Ninguém é perfeito, todos têm um defeito. Sou muito feliz."Agora, ela está empenhada em lutar pelos direitos dos adolescentes que têm HIV.
Para isso, está criando um grupo de discussão na internet com o objetivo de formar uma rede nacional de jovens soropositivos (quem quiser participar, basta mandar um e-mail para cepac@cepac.org.br). "Quero trabalhar para o nosso crescimento e fortalecimento e buscar soluções para as nossas dificuldades. Estou empolgada, acredito que nos tornaremos protagonistas de nossas próprias histórias."
Para os especialistas, esse tipo de engajamento é muito importante. No Cedoc do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, por exemplo, os jovens estão construindo um banco de dados sobre a adolescência com o HIV, que será colocado em um site. Por enquanto, o grupo tem um blog (http:/ /cedocjovem.blogspot.com). "Eles perdem a vergonha e dão um passo de auto-estima, de valorização. Aprendem muito, a pesquisar, a ler, a escrever profissionalmente. E fazem uma reflexão do que é viver com o HIV", afirma a educadora Ana Tereza Bonilha, coordenadora do Cedoc.
A partir deste ano, os encontros serão organizados pelas próprias instituições e apoiados pelo Unicef. O encontro estadual de São Paulo está previsto para junho e o nacional, para outubro (informações pelos tels. 0/xx/ 11/5084-0255 ou 3763-2159).

*Todos os nomes dos adolescentes entrevistados nesta reportagem foram trocados.

7 comentários:

Raoni disse...

Acabei de ler a matéria da folha aqui em casa e me achei muito legal a atitude de vocês. Aids não é um defeito, é uma doença e tem q ser respeitada como todas as outras. Ninguém é melhor ou pior só pq possui o vírus.

Raoni disse...

Só corrigindo:
Acabei de ler a matéria da folha aqui em casa e achei muito legal a atitude de vocês. Aids não é um defeito, é uma doença e tem q ser respeitada como todas as outras. Ninguém é melhor ou pior só pq possui o vírus.

cedoc disse...

Oi Raoni,

eu concordo com vc! Não sei exatamente como foi que a jovem Nicole deu esse depoimento, porque às vezes fora do contexto parece que a pessoa disse uma coisa que não disse. Mas de qualquer forma dentro do CEDOC acredito que todos os adolescentes e profissionais tem esse posicionamento.

Anônimo disse...

Gostei muito da matéria na Folha. Eu não sou hiv+, mas meu pai faleceu em conseqüência do vírus quando eu tinha 17 anos. Na época, há mais de 10 anos atrás, foi muito difícil, pois não havia com quem conversar a respeito.

cedoc disse...

Olá,

Lamentamos por seu pai. Infelizmente no começo da descoberta da aids poucos recursos existiam para tratar àqueles que estavam infecctados. Mesmo hoje, não podemos esquecer nunca o que está acontecendo na África em que milhares, ou sem exageros, milhões de pessoas estão morrendo sem medicação.
E ainda com acesso aos remédios devemos considerar que a infecção pelo vírus hiv é grave e infelizmente por diversas razões, mesmo com o uso da medicação, ainda faz vítimas.
Todos nós torcemos para que se encontre a cura e a vacina o mais rápido possível.
Agradecemos por compartilhar conosco sua vivência e desejamos que volte sempre para debatermos o assunto.
um abraço de todos!

Anônimo disse...

a materia ficou fmz!!!!!! tenho uma amiga c/ o virus e qdo sobe foi ruim... agora to de boa e nesses dias ate falamo da reportagem.. valeu!!!!!!!1

Anônimo disse...

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